Walter Silva

Uma vez escrevi um texto sobre a vida de Magnus Hirschfeld. 
Um homem gay comentou comigo:
”Nossa você escreveu um texto imenso. Deu preguiça de ler. Para quê tu escreve sobre o passado? gays não querem saber de histórias do passado”.
E há alguns que pensam que estou usando tais histórias para dar justificativas sociais para a prática da homossexualidade; eles acreditam que é mais do que suficiente defender a causa gay através do igualitarismo moderno do liberalismo ou das esquerdas.
Então julgo pertinente explicar sobre meus motivos.

Os seres humanos são animais extraordinários; eles são construtores de sentido. Nossa cultura humana é uma teia de significados. Tais significados alimentam nosso espírito, trazem colorido para nossas vidas, permeiam as nossas relações uns com os outros. E no caso de minorias marginalizadas e vítimas de opressão, é a sua própria cultura que lhes confere dignidade, resistência e de onde elas extraem força para sobreviver em um meio hostil. Pense na menina negra que foi capaz de sentir orgulho da sua boneca negra. E pense naquela que recusou a mesma boneca. A diferença entre ambas está no fato de uma delas foi cruelmente apartada da sua cultura.

É por isso que me tornei um contador de histórias.
Porque um dia eu quis ter um namorado, mas dentro das cosmovisões que eu conhecia, dois homens não podiam ser namorados. Um dia eu achei que iria para o inferno, e um dia eu golpeei meu peito cheio de ódio por mim mesmo.
Eu conto tais histórias sobre heróis, pioneiros e deuses gays porque elas me trouxeram autoestima, me conectaram com minha comunidade, me inspiraram a resistir. Elas representam a teia que suavemente me apanhou antes que eu despencasse no vazio.
Então não pergunte mais ”para quê”. Se não lhe foi útil, passe adiante e apenas ignore.

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O ataque do heteroterrorismo ao Queermuseu do Santander

Sem título

Walter Silva ||| Symposium ©

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Edward Carpenter

O julgamento de Oscar Wilde no final do século 19 representou uma tragédia para a comunidade gay da época. O clima moral da Inglaterra havia se tornado intensamente hostil à homossexualidade (ao contrário de outras nações da Europa) e até mesmo a masturbação mútua em privado entre dois adultos era ilegal. Wilde foi completamente arruinado após o julgamento, e sua saúde deteriorou-se rapidamente. A desgraça dele se tornou um alerta terrível para os riscos de se viver uma vida gay. Nesse momento de sombras, a única luz brilhando quando todas as luzes se apagaram era Edward Carpenter; pioneiro do movimento gay na Inglaterra, escreveu corajosa e abertamente em defesa do amor homoerótico, ao lado do seu companheiro George Merril, inspirando gerações de gays nos anos de grande silêncio e medo.Carpenter conheceu Merril em uma viagem de trem e ficaram juntos 30 anos. Os dois foram enterrados no mesmo túmulo.
Algumas fotos de Carpenter na juventude e ao lado de George, que era mais novo que ele.

 

 

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Jovens gays cristãos

Muitos, centenas ou milhares de meninos gays nasceram em lares cristãos e são aliciados desde cedo, expostos à uma ideologia heterossexualista excludente. Eles cresceram e um dia descobriram que têm um desafio de vida e morte diante de si; o mundo em que eles respiram e caminham não foi feito para eles.
Esses meninos vão tentar o impossível para sobreviver neste mundo que os rejeitará de muitas formas; o desejo dentro do coração deles queimará com uma dor incomparável, essa dor que surge do atrito entre quem eles são, e quem eles foram criados para ser. E das profundezas do espírito um grande fogo irá consumir seus pensamentos, um fogo que é para eles um vestido vermelho da Babilônia e a causa da sua tristeza.
É por isso que eles buscarão caminhos tortuosos que a seus olhos irão parecer estradas de luz e os seus sentidos serão capturados por cânticos cruéis e familiares, uma jornada procurando algo que lhes devolva alguém, um outro ”eu” que jamais existiu, alguém que é apenas uma miragem e supostamente tem o poder de curar suas feridas. Alguns desses meninos vão morrer precocemente porém; seja pelas próprias mãos, seja pela palavra falsa e venenosa de um deus ilusório, um deus que fala somente pela boca de homens mortais. A primeira morte é física; a segunda é uma morte espiritual, devoradora e ladra de pedaços de vida. Dentre as muitas formas de morrer espiritualmente a principal para eles será aquela que virá da promessa insidiosa de ”libertação”, ”renovação”, ”renascimento”. Homens e mulheres perversos, cheios de ódio e estultícia, vão lhes ensinar que ”eles se tornaram algo”, e portanto, podem ”deixar de ser algo”. Gostaria de poder dizer a esses meninos que a única libertação possível para eles é o amor pelo verdadeiro Eu; lá no fundo a revolver-se nas sombras, sujo e desamparado, desviante e fora de lugar, é assim que esse ”eu” aparenta ser. Mas sua natureza é completamente diferente; ele é o salvador que você tem esperado. Somente esse amor, que deve ser incondicional, é capaz de nos resgatar do ódio das doutrinas homofóbicas. É a única solução, o único caminho, a verdadeira luz, o baluarte para nos proteger a todos das tempestades de hostilidades mundanas. Não é algo que está ”lá fora”, não será ouvido através de canções gospel bregas. Não vai cair do céu. Nenhuma pomba branca o carregará até você. Nenhum anjo de harpa lhe dará isso. Abrace a si mesmo, e se fizer assim com coragem suficiente, nunca se tornará um estrangeiro dentro da sua casa, mas o mestre da sua vida. E tudo aquilo que lhe faltar, lhe será dado em dobro.  [
Walter Silva]

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Cultura Gay

A expressão ”cultura gay” é reveladora.
O espanto, a incredulidade e até o deboche quando ela é mencionada diz muito sobre o desprestígio e o grau de marginalização da nossa comunidade.
Não há incredulidade relevante em face de uma ”cultura Afro”.
Nem uma incredulidade diante de uma ”cultura católica” e ”cultura evangélica”. Não existe incredulidade ao redor de uma ”cultura surda”. Não há incredulidade em face de uma cultura judaica, evangélica, chinesa, islâmica, ou uma cultura masculina, ou uma cultura feminina. Mas a ideia de ”cultura gay” é recebida com sarcasmo, surpresa, gracejo, piadas, memes, incredulidade e ceticismo. O choque maior vem de gente que reduz nossas vidas ao termo ”homossexualidade”, criação equívoca de um sujeito que ninguém sabe se era homossexual e que não consegue dar conta da amplitude do fenômeno, que abarca desejo, orientação sexual, identidade e uma cultura, ao passo que ”sexualidade” aponta apenas para atos comportamentais eróticos.
Mas para começo de conversa, será que essas pessoas sabem o que é uma ”cultura”?
Embora o termo não possa ser definido satisfatoriamente, todos conseguem instintivamente reconhecer algo ”cultural”.
O sistema linguístico. As leis de uma nação ou as regras de um condomínio. A literatura, a arte, as ciências, a religião, os símbolos, os sinais diacríticos, os artefatos, o modo de vida, o comportamento que se ensina. Então os gays não produziram sua própria teia de símbolos para se comunicar consigo e com seus semelhantes? Não criaram elementos discursivos para se ajustar ao mundo e sobreviver a ele? essa imensa e sofisticada teia que incluiu cripto dialetos como o Polari, um corpo de literatura especificamente homoerótica, pensada para espelhar seus padrões de vida, amor e sexualidade em diferentes locais e épocas, além de festivais e jogos, vocabulário, estética, maneirismos, afetação, deuses, rezas, superstições, vestimentas, etc, tudo isso é ”cultura gay”.   [Walter Silva]

 

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Pai

Eu teria vergonha de mostrar a você, e você teria vergonha de ler; percebe como somos parecidos? Ainda assim, entretanto, preciso escrever isto.

Pai, você me trouxe bastante sofrimento e dor ao longo do tempo. E eu senti muito ódio de você em vários momentos da minha vida.  Quando eu era só um menino,  você surgia nos meus pesadelos, você era meu bicho papão. Lembro das suas bebedeiras, lembro das suas ameaças, lembro de tua violência terrível.

Apesar disso, Pai, a lembrança que mais persiste comigo, a mais antiga, a que levarei sempre, te prometo, é aquela da tua mão segurando a minha ternamente, me acariciando como se eu fosse alguém especial, alguém querido. Eu tinha cinco anos? talvez menos?

Eu sou rancoroso pai, e guardo muitas mágoas de nossa relação conturbada. Mas eu também tenho compaixão por ti, não posso evitar, é da minha natureza; eu o vi carregar sua pesada cruz, e vi quando ela te esmagou inumeráveis vezes.

Eu vi sim, eu estava lá. E em alguns destes dias eu tentei removê-la de cima de você.

Lembra quando morreu nosso cão?  de repente você se ergueu e começou a andar apressado para seu quarto, sozinho, sozinho. Senti uma pena infinita de você. Maior que o céu.

Então fui atrás e você soluçava copiosamente. Eu sentei perto de ti, e coloquei minha mão nas suas costas. E tentei te consolar.

Lembra quando você teve o AVC? só estávamos nós dois em casa.  Fui eu que carreguei você do banheiro até sua cama. Fui eu que chamei ajuda. Você poderia ter morrido naquele dia se eu não estivesse lá.

Não quero que pense de mim que sou  ingrato, que só lembro das coisas ruins.

Você nunca será um ”pai do orgulho gay”. Eu nem mesmo sei dizer o que você pensa sobre este assunto. Por outro lado, Pai,  creio que devo reconhecer que você evitou muitas situações ruins na minha vida, algumas com as quais eu nunca teria força para lidar. Recusou-se a me levar para um puteiro, por exemplo, quando seus amigos o coagiram a isso, conforme ditava a tradição do macho nordestino. E eu sou grato por isso.

Um homem extremamente  difícil de lidar, esse seu temperamento  se assemelha a um deserto tempestuoso, Pai. E ainda assim, mesmo no teu deserto há algumas flores inesperadas, algum colorido e perfume.

Tenho a sensação de que você ainda me enxerga como quando eu tinha nove anos; talvez isso explique os doces que eu ganho  ainda hoje de presente de ti.

Escrevo isso para confessar que me angustio muito contigo. E que ainda choro, agora depois de homem adulto, pensando em você vivendo naquela casa, solitário.

Choro porque sei da dureza do seu coração; você não aprendeu certas coisas, não sabe lidar com certas emoções e circunstâncias. Choro porque me sinto tão culpado, apesar de não saber de quê.

Choro também porque você é muito parecido comigo. Mais do que gostaria de admitir.

Eu amo você Pai.

 

 

Walter Silva ||| Symposium ©

 

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MÊS DA CONSCIÊNCIA GAY

Walter Silva

Estamos no mês da Consciência Gay, uma data ainda sem reconhecimento da comunidade, dado que a nossa memória e história foram sequestradas por um comboio de movimentos sociais disparatados e não relacionados entre si.
Mas isso não nos impede de falar sobre este mês auspicioso de agosto onde se comemora o nascimento do primeiro ativista homossexual do mundo, Karl Heinrich Ulrichs (28 de agosto de 1825) e também o seu discurso épico em Munique, na Associação dos Juristas alemães em defesa dos direitos de homens homossexuais (entre 27 e 29 de agosto de 1867).
A meu pedido o fundador do Grupo Gay da Bahia (Luiz Mott), visitou o túmulo de Ulrichs em Áquila algum tempo atrás.
Seguem alguns fatos curiosos da vida do homem que começou a luta pelos direitos civis gays:

-Ele se apaixonou aos dez anos por um colega da mesma idade. E planejou se declarar ao menino na sua festa de aniversário. Mas o seu pai morreu tragicamente às vésperas da festa. Tudo que ele pôde fazer foi convidar o amado para acompanhar ele um dia no caminho para casa, em silêncio.
-O primeiro beijo na boca aconteceu aos 25 anos; caminhando de mãos dadas em uma idílica floresta de faias, ele beija um soldado Hussardo. Ulrichs costuma falar dos seus amores através de poemas.
-O tipo de homem que ele gostava eram os fardados; os hussardos em particular, deixavam ele em fogo. O hussardo era um militar do regimento montado, muito popular na Europa; aos nossos olhos talvez ele lembre mais um rapaz de desfile de banda marcial que um soldado. Ou um príncipe de contos de fadas. Nem delicado demais, nem machão demais.
-Ulrichs mencionou o Brasil em um discurso de 1859; ele falava sobre a unificação da Alemanha, e insta os alemães a se unirem para formar uma grande nação moderna ao lado dos EUA e do Brasil.
-A primeira denúncia de crime de ódio homofóbico nas Américas foi feita por Ulrichs; ele reporta uma tentativa de linchamento de um uraniano em Chicago.
-Antes de se assumir publicamente (e ele é a primeira pessoa gay a sair do armário no Ocidente moderno), Ulrichs travou uma guerra de correspondências com seus parentes, debatendo com eles e defendendo a homossexualidade.
-Ulrichs amava a língua latina, uma forte conexão espiritual com os gays que falam idiomas que nasceram do latim.Quando morreu no quarto de um hospital em Áquila ele ouvia a ”Ave Maria”.
-Escreveu um conto chamado ”Manor” onde narrou a melancólica história de amor entre um vampiro e um rapaz mortal, abordando o homoerotismo abertamente muito antes da relação enrustida e subentendida de Louis e Lestat (Entrevista com o vampiro).

Referências: ”Karl Heinrich Ulrichs: Pioneer of the Modern Gay Movement” de Hubert Kennedy

 

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