Homicídios de LGBT no Brasil em 2018

NÚMEROS DE UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA

Eduardo Michels

José Marcelo Domingos de Oliveira

Contador

O Grupo Gay da Bahia (GGB) registrou, com ajuda de militantes, simpatizantes e outros colaboradores espalhados pelo país, 347 casos de homicídios de pessoas LGBT. Casos amplamente noticiados pela mídia convencional (jornais, televisões, rádios) e as redes sociais (Facebook, Whatsapp, Instagram), apesar de reconhecermos ainda a existência da subnotificação e, em certa medida as críticas acerca da categorização de tais casos enquanto vítimas de homofobia, posto não teremos nos primeiros dias, meses e até anos a identificação da autoria e a motivação, apesar disso, sabemos pela experiência de mais de 40 anos de luta em prol dos direitos humanos, o quanto a cultura machista se manifesta através de tais atos, mesmo quando não se visualiza tais indícios, mas uma transexual ou travesti alvejada em áreas de prostituição dá conta de uma homofobia estrutural, ou seja, estar na prostituição nem sempre é uma escolha, mas uma necessidade de sobrevivência, especialmente para aquelas trabalhadoras que tiveram fechadas as oportunidades de estudar, de se qualificar e adentrar o mercado de trabalho formal.

Os dados dão conta de 34,7 casos por mês, entre janeiro e outubro de 2018, ou uma média de 1,15 casos por dia. Tragédia sempre denunciada pelo Grupo Gay da Bahia, através do site: “Quem a Homofobia Matou Hoje”, apesar das críticas quanto à estratégia de divulgação, a mesma se reveste de importância, quando se compreende o valor da vida e as execuções contínuas em território nacional e, apesar de todo o clamor da militância, dos familiares e amigos, os casos continuam a acontecer de forma perene.

O Gráfico 2 permite-nos observar a dispersão dos casos de homicídios de LGBT no Brasil, entre janeiro e outubro de 2018, quando se visualiza um fenômeno ativo, com a tendência de crescimento, retração e novamente ascensão sem uma causa aparente, por isto, a necessidade do monitoramento, implementação de políticas públicas de enfrentamento (tanto de segurança pública, quanto de combate as vulnerabilidades sociais). Além de investimentos em investigação científica, melhor divulgação das estratégias de sobrevivência junto à população LGBT, por não existir um arquétipo em que se possam fincar as bases de uma política de prevenção, em outras palavras, qualquer homossexual pode ser vítima de violência ou homicídio, no Brasil.

Os dados organizados por mês e distribuídos ao longo do ano dão conta de uma tragédia, mas aproximando a lente para cada um dos episódios é possível visualizar a violência e a criminalidade em nossa sociedade, com relação à desigualdade social, o tráfico de drogas, o ódio, enfim, os motivos para tais crimes estão estampados nos jornais, nos processos judiciais, nos Tribunais do Júri, ou mesmo no silêncio a impor o esquecimento para a maioria das vítimas, se nada for feito e não haver uma resposta mais contundente do Estado e da sociedade.

O chamamento à luta não é apenas dos LGBT, mas de toda a sociedade por respostas concretas em prol da vida e pela cultura de paz e, para isto é necessário investimentos em segurança pública, com policiais capacitados para elucidar e uma sociedade ávida por imprimir a justiça, pois de nada adianta levar ao banco dos réus e o Tribunal do Júri absolver, quando as provas são contundentes quanto à autoria. Além disso, a escola deverá incluir em seus currículos o respeito e o convívio com as diferenças, como premissa básica da vida em uma sociedade democrática e isto não significa ideologia de gênero, pois é o mínimo a ser esperado numa sociedade republicana, onde há de fato a defesa das minorias, sem a pecha do vitimíssimo.

A tragédia sob a qual os LGBT convivem ao longo das três últimas décadas não pode ser uma fatalidade, o futuro deverá ser de uma sociedade para todos, ou mais especificamente, ninguém seja vítima de ódio, escarnio ou desaprovação social devida a sua orientação sexual, posto ser mais importante à participação cidadã e, as estatísticas atuais de homicídios de LGBT seja apenas uma lembrança triste de um passado a nunca mais se repetir.

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